quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O amigo do Diabo

Passou a vida inteira jogando na loteria.
Não abandonou seu vício nem mesmo depois da fatídica tarde em que seu médico trouxe o diagnóstico de que não teria mais de um mês de vida, assolado por uma devastadora e misteriosa peste que já havia levado muitos de sua terra natal, além de todos os seus familiares.
Era pobre, mas não miserável, de modo que nunca passou fome, mas não teve qualquer abundância e nem pôde realizar seus sonhos. Queria andar de jet ski, exibindo-se em uma praia repleta de garotas semi-nuas. Queria tomar os melhores vinhos. Queria ter um alambique em casa. Queria voar de helicóptero. E, de ótimo coração, também queria ajudar todas as crianças pobres do mundo.

O tão esperado bilhete premiado veio, mas por ironia cruel do destino, somente no pior e último momento de sua vida. Seus braços fracos e exauridos pela doença mal conseguiam se levantar para esboçar comemoração. Suas pernas, tanto menos. Na escuridão quase total de seu quarto, salvo pela luz de uma única vela acesa, o que era pra ser felicidade transformou-se em lamento e revolta. “Para o diabo!”, murmurou, pois não podia mais gritar. “Para o diabo!”.
Nesse momento, a chama da vela solitária começou a crescer e a crescer, fazendo todo o quarto ser tomado pelo fogo em questão de segundos. Na ardência repentina, surgiu a imagem de um ser vermelho, de chifres, cauda e um impecável fraque negro. Era o diabo em pessoa.
- O que você quer? – perguntou o agora milionário, sem medo e consciente da situação.
-Não lhe parece óbvio? – começou Lúcifer com sua voz grave e exalando terrível hálito podre. – Quero sua alma.
- Mas isso não devia ser um pacto? Eu não deveria ter algo em troca?
- O que quiser, meu caro. O que quiser.
- Pois bem – pensou bem antes de anunciar. – Quero levar toda a minha fortuna comigo. E se não der para usar dinheiro no inferno, que eu possa transformar esse poder financeiro em algum tipo de poder equivalente. Quero continuar rico!
- Que assim seja – respondeu o diabo, finalizando a conversa.
Entregou-lhe um papel para que assinasse. E feito isto, sua horripilante imagem foi sumindo e o fogo apagou-se por completo, sem consumir nada daquele humilde quarto. Por um instante indagou a si mesmo se aquela experiência não havia sido um delírio causado por seu estado terminal. Sem resposta, fechou os olhos para dormir e não mais os abriu.

Era o fim de sua vida de lixo e o início de uma era de luxo que não começou tão boa assim. Estava no inferno, afinal. Um gigantesco deserto de areia vermelha e escaldante abriu-se a sua frente e a imagem de um céu escuro acima de pessoas se arrastando em busca de alimentos e de escravos açoitando outros escravos perturbou-lhe a mente. Mas estava lá, livre da doença e com poderes que ainda não conhecia.
Procurou pelo demônio com quem tinha conversado para saber se sua parte do pacto havia sido cumprida e teve resposta positiva, apesar de não ter recebido muita atenção. Ganhou, então, pedras mágicas que podiam ser trocadas pelo que quisesse. Era o dinheiro que esperou a vida toda e só chegara depois da morte. Com suas pedras, tratou logo de melhorar o ambiente que agora vivia. Sua riqueza impedia qualquer castigo infernal. Até mesmo no inferno os ricos têm privilégios. Construíram para ele uma casa, como sempre desejou, com fontes de cachaça. Adquiriu uma espécie de helicóptero individual, por onde podia sobrevoar todo o deserto vermelho. Com outras tantas de suas intermináveis pedras mágicas, deu um jeito até de fazer uma praia artificial no deserto para que andasse de jet ski. Só faltava, no entanto, quem o ensinasse. Os melhores e mais caros vinhos do planeta estavam na adega de sua casa subterrânea. E como nunca bebia sozinho, passou a convidar seu primeiro e único conhecido, Lúcifer, para as noites de degustação e consequentes exageros. Brindava com o diabo e conversavam sobre todos os temas possíveis e imagináveis. Entre uma taça e outra, falavam dos políticos que por ali estavam, de quem gostariam de ver no inferno, das guerras, dos pedófilos e até mesmo de Deus, a quem o demônio torcia a boca cada vez que pronunciava. A situação era que ele só tinha Lúcifer como companhia e Lúcifer honrava-se de ser convidado para tantos drinks. Ninguém nunca havia se aproximado tanto do diabo. Viraram amigos. Ele ajudava na parte administrativa do inferno oferecendo, inclusive, uma série de melhorias, as quais o demônio nunca havia tido a capacidade de pensar. Tornou-se o braço direito do tinhoso.
Em uma outra infindável noite qualquer regada a vinho, confessou a Lúcifer que apesar de ter sua alma vinculada ao mal, mantinha em sua mente, e quem sabe em seu coração, seu antigo desejo de ajudar de alguma forma as crianças que passavam fome no mundo. O diabo tentou persuadi-lo, dizendo que “o mundo” era passado, pois o “seu mundo” agora era o inferno, com tudo que ele queria e era seu por direito, mas foi em vão. E diante de sua inabalável convicção e bondade, Lúcifer percebeu que aquele não era seu lugar. Como forma de raro agradecimento para com aquele que foi seu único amigo em toda eternidade, propôs:
- Eu rasgo nosso pacto e te faço voltar à vida, com saúde e toda a sua riqueza. Você realiza seu sonho e, na hora certa, eu volto para te buscar e tomarmos mais vinho por aqui.

Aceitou, radiante e emocionado. Fechou os olhos, como na vez que morreu, mas dessa vez os abriu logo. Estava novamente em seu pequeno quarto. Levantou-se, olhou no espelho e percebeu-se incrivelmente saudável. Tomou-se por completa felicidade até que viu sua riqueza que trazia do submundo: um punhado de pedras avermelhadas, sem qualquer valor aqui na Terra. Procurou desesperado e achou seu bilhete de loteria, mas o prêmio já havia caducado há tempos. Estava pobre de novo.
Depois de algumas horas de lamentação, resolveu sair às ruas para aproveitar seu único bem, sua saúde. E ao atravessar a primeira rua, descuidou-se e virou vítima fatal de um atropelamento. Era a segunda vez que morria, mas a primeira que morria miserável.
No além, foi recebido por anjos que o guiaram até o céu, onde, por toda a eternidade, tocaria harpa em um ambiente de total calmaria confundida com tédio, ou vice-versa. Sem vinhos, alambiques ou helicópteros.

E o diabo? Bom, este rapidamente se esqueceu do babaca que tinha passado por ali. Preocupava-se apenas em fazer manobras radicais no jet ski, exibindo seu belo rabo para as garotas semi-nuas.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Trincheira

Combatentes, um aviso: não vão me ferir.
Hoje encaro a guerra de outro modo. Não mais me exponho como antes. Quantos tiros tomei em meu peito? Sinceramente, não sei como sobrevivi.
Carrego um escudo pesado. Mas não o solto por nada. Meu capacete está apertado, não vai cair da minha cabeça caso eu me mova. Sozinho, cavei uma trincheira profunda e muito segura.

Não me chamem de covarde. Ou chamem, se assim considerarem. Eu não me importo. Aprendi a atirar e no primeiro sinal de perigo não tenho piedade em matar quem pode me ferir. As cicatrizes são visíveis e me lembram o tempo todo do perigo que corro a cada batalha. Mas não me retiro, apenas me protejo.

Sei que me meti em um buraco tão fundo que não sei se posso sair para ver o sol. E às vezes penso que se o inimigo aparecer enquanto me distraio e disparar fatalmente em meu peito, tanto melhor. Acabaria com meu desconforto e as cicatrizes não fariam qualquer diferença. Às vezes torço pra isso.
Mas minha experiência no campo de batalha me diz claramente: não iriam me matar, somente me ferir. Logo, me protejo mais e faço disso um ato impossível.

Se não for fatal, ou seja, para sempre, que assim seja, portanto. Que minha trincheira me esconda, que meu escudo me ampare e minhas armas não falhem contra esse inimigo chamado paixão.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Eutanásia

Livre-me do mal, que tal? Cure-me do desconforto que morto não sente dor. Pare minha fome e retome sua vida. Agrida com vitória quem só me faz ferida. Deixe-me ser dominada, já que dela não escapa nada. Não tem jeito, já tá feito. Doença maldita que me leva à escuridão. Não, não peça perdão. Melhor assim. O fim não é pior que esse meio. O alívio é melhor que o receio. E é assim que eu me recolho. Se insiste, me olha no olho. Não posso falar, mas sei demonstrar. Neste brilho, como de uma mãe para um filho, está sua absolvição. Não se preocupa. Não bota a culpa em ninguém, pois quem poderia evitar? Mas não me deixa te ver chorar! Não me dá mais esse castigo. Esse fardo, amigo, é meu. Mas valeu! Estarei para sempre contigo. E me carrega sempre na memória. Toda história que construímos... e como nos divertimos! Agora, tenta dormir. Amanhã já quero partir. E terá que assinar um papel que vai garantir minha ida pro céu. Seja forte, meu rapaz. Pode crer: ficarei em paz. Quando o líquido me invadir, segura bem a minha mão. Minha visão vai diminuir e não quero ver ou sentir sua lágrima caindo. Estarei indo. Cuida da sua mãe e da minha. Elas eram o mais importante que eu tinha. Fica bem aí desse lado. Eu só posso dizer obrigado. E quando der, por favor, sorria. Vai acabar a minha agonia.











dedicado à minha gata Faísca que, há dois meses, partiu rumo a Gatópolis.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Jesus Cristo is now following you on Twitter!

Ele voltou. No século XXI. E justo no Brasil.

Voltou e demorou para aparecer, pois precisava de um plano para provar pra humanidade que ele era Ele mesmo. Ninguém nunca entendeu direito esse plano, mas ele conseguiu. Todos sabiam que aquele era Jesus. Foi um plano divino, afinal.

Na TV brasileira foi um fenômeno.
Participou do Big Brother e foi recordista de vitórias em provas do líder. Ganhou todas que participou! As provas de resistência foram sua especialidade. Para dar graça à competição, Boninho criou, então, uma nova regra que proibiu 5 lideranças consecutivas. Com isso, o novo líder indicou Jesus para o Paredão e o público exigiu a eliminação do líder, acusando-o de “novo Judas”. A produção do programa acatou. Jesus ganhou o reality e doou o prêmio.

Foi no Domingão do Faustão pra falar de sua participação e acabou indo às lágrimas no Arquivo Confidencial. Deu entrevista pro Jô, que insistiu na piada de dizer que eles eram xarás, pois seu nome era "Joshuares". Fez crescer cabelo na cabeça do Derico e transformou a água da caneca do Jô em vinho.

Recusou assinar contrato fixo com qualquer emissora e participou também da Fazenda. Amou todos os animais de lá como a ele mesmo e ressuscitou um bezerro. Ganhou fácil também.
Bem-humorado, participou do Pânico na TV e obviamente levou pra casa o carro de passeio do Amilcar na prova de andar sobre as águas.

Seu Twitter passou a ter mais seguidores que o Twitter da Lady Gaga, do Marcelo Tas, do Luciano Huck e do Mano Menezes juntos. E o número aumentava absurdamente a cada dia. Os cristãos, todos, queriam criar uma conta no microblog só para seguir o @JesusCristoOficial que, não só tinha o selo de Verified Account, como também o de Jesus’ Account. Seu nome ficou o tempo todo nos Trending Topics, que frequentemente também tinha as hashtags #elevoltou, #eujasabia, #aleluia e #perdao. Seus tweets contavam de forma descontraída as suas impressões sobre o mundo de hoje. O único problema, no entanto, é que indiretamente ele provocou o milagre da multiplicação de baleias. O servidor do Twitter não aguentou e entrou em colapso.

No Facebook, Jesus ostentou a maior e mais organizada Farmville do mundo. Em seu mural, testes do Quiz Planet revelaram que seu nível de maldade era 0%, que se ele fosse um filme do Kubrick ele seria o “Glória Feita de Sangue” e que em uma suposta vida passada ele teria sido um camponês medieval. E milhares de pessoas “curtiram” tudo que ele publicou.

Jesus também criou um Formspring, pra sanar as dúvidas da população mundial. Sensato, não exibiu perguntas pessoais, mas fez questão de responder por e-mail aos curiosos desesperados. Dentre as perguntas que mais se destacaram, estavam: “O Toninho do Diabo te incomoda?”; “O que o Senhor tem a dizer sobre o Santo Prepúcio?” e “O Corinthians vai ser campeão da Libertadores?”.

A Igreja foi a única instituição que não reconheceu Jesus como Jesus, apesar de sempre terem cravado sua volta. Não seria interessante pra eles, visto que o próprio Cristo não se vinculou à religião alguma e criou um novo conceito para religião. Na política, também não se envolveu. Disse ao CQC que pegou raiva depois que Pôncio Pilates e Harodes Antipas o sacanearam. Gentili brincou dizendo que não mudou muita coisa de lá pra cá.

Foi convidado a dar o pontapé inicial na partida final da Copa do Mundo, que teve toda sua renda destinada a pessoas carentes. O jogo foi entre Brasil e Argentina. O jogo começou e Jesus logo teve que voltar ao gramado, 38 minutos depois, solicitado pela equipe médica. O principal jogador brasileiro estava no chão, com o joelho estourado e Cristo o curou apenas pondo a mão sobre a patela do camisa 10. A torcida cantou: “Há, há! Hu, hu! A mão de Deus é nossa!”

No final do ano, de novo na Globo, o cantor Roberto Carlos, com um impecável terno azul, fez emocionado o melhor especial de sua vida. E quando cantou “Mas meu amigo, volte logo. Venha ensinar meu povo que o amor é importante. Vem dizer tudo de novo.”, Cristo entrou triunfalmente no palco e, juntos, encerraram o show com a canção: “Eu voltei, voltei para ficar..."

E foi numa tarde de sábado que ele convocou jornalistas do mundo inteiro – e ele tinha aprendido a falar todas as línguas muito bem, conselho de seu amigo João Paulo II – para uma coletiva de imprensa. Disse que o mundo não tinha muito jeito mesmo, que o juízo final começaria em 3 meses e que, nesse período, iria para os Estados Unidos treinar MMA para o derradeiro combate corporal com o Anti-Cristo. Ganhando ou perdendo, o planeta seria castigado com diversos desastres naturais por 7 anos, mas um disco voador livraria os bons do suplício. Após seu pronunciamento, vestiu sua jaqueta de couro, subiu em sua Harley Davidson e voou até sumir nas nuvens.

E depois disso, nunca mais apareceu.
Mas o twitter voltou a funcionar normalmente.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Perfídia

Bola 8 na caçapa do meio, cantou sua última tacada. E venceu.

Uma última golada na cerveja, matando quase todo o copo americano. “O sabor da vitória”, disse erguendo seu copo, desmerecendo a atuação da dupla adversária, que perdeu o jogo para um só homem.
Seu primo, companheiro de sinuca, não estava lá, havia dito que estava doente e não poderia sair de casa.
Recusou outro jogo. Recusou outra cerveja. Queria estar sóbrio.
Foi até o dono do bar, velho conhecido, e pediu para que pusesse a garrafa consumida na conta. Sem problemas.
Com ele, nada de dinheiro. Apenas seu RG e um presente que seu tio lhe deu.
Despediu-se de todos e tomou direção contrária à sua casa. Pra quê voltar pra casa, se sua mulher não estaria lá, afinal?
Ela havia dito que passaria a noite na casa de sua mãe, pois ela não estava bem.

No caminho, passou por um campinho. Desses que só se encontram nas periferias da cidade e mesmo assim estão cada vez mais escassos. Algumas crianças terminavam o futebol. Já era noite. Parou para observar e sentiu saudade de quando era moleque e jogava bola com o primo, o mesmo da atual parceria na sinuca, em um campinho muito parecido, até o anoitecer.
Uma das crianças do time que havia vencido o jogo, feliz e aliviada como se tivesse tirado um peso imenso das costas, comemorava cantando:
“Olha o passo do elefantinho. Olha como ele é bonitinho.”

Seguiu em frente.
Passou por um prostíbulo sujo do bairro. Olhou para a meretriz que estava na porta, uma mulher loira que visivelmente já não gozava da juventude, usando roupas que visivelmente não gozavam do bom gosto. Lembrou de algumas das vezes que havia adentrado aquele estabelecimento. Os porres que lá tomou, as garotas com quem se divertiu e o dinheiro que ali ficou. Isso, é claro, antes de se casar e se tornar um homem direito.

Virou a esquina. Caminhou por uma rua escura e estreita, com postes que ocupavam quase toda a calçada e caixotes jogados que faziam qualquer pedestre desviar, tendo que passar pelo meio da rua. Isto é, se existisse algum outro pedestre com coragem o suficiente de passar por aquela rua tão sombria e aterradora.
De um lado, algumas fábricas já vazias e sem funcionamento. Do outro, um muro, bem longo, separando o asfalto do mato e que só terminava na lateral da única casa da rua.
Uma casa sem vizinho nenhum.
Era lá o seu destino.

Ao se aproximar, viu que a única luz acesa daquele lar era a do andar de cima.
Subiu em cima do muro do matagal, passou pro muro da residência e pulou para dentro do quintal dos fundos. Conhecia muito bem aquela casa, tão bem que tinha certeza que a porta da cozinha estaria aberta. Estava.

Entrou. Tudo escuro. Não fez barulho nenhum.
Foi até a sala. Sem enxergar nada. E sem fazer barulho nenhum.
Chegou na escada. Subiu devagar. Não fez barulho nenhum.
Andou pelo corredor. Lentamente. Barulho nenhum.
Com a mão esquerda, girou e empurrou a maçaneta.
Com a mão direita, sacou o presente de seu tio.
E deu dois tiros.
Um no peito de sua mulher.
E um na cabeça de seu primo.

Jogou a arma sobre a poça de sangue.
E saiu pela porta da frente.

Na rua escura, andava de volta para casa e assobiava:
“Olha o passo do elefantinho. Olha como ele é bonitinho.”

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Dorme, dor

Dorme
Descansa os olhos cansados de chorar
Deixa que ponho tudo em seu lugar
E quem sabe eu possa te fazer rir
Quando o sol voltar a se abrir

Dorme
Que amanhã será um novo dia
E se não voltar tua alegria
Essa tua amarga agonia
Ganhará a minha companhia

Dorme
Com os anjos, se tiverem respeito
Enquanto construo aqui nossa casa
E se um não proteger-te direito
Eu vou lá e arranco-lhe a asa

Dorme
Que essa dor pode não ter passado
Mas eu tenho um favor a pedir
É que eu quero estar bem ao teu lado
Quando tu acordar e sorrir.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O jardim

Era novembro, mas fazia frio. Maluquices do tempo.
Aquele senhor voltava do bar com seu maço de cigarros no bolso, motivo de sua coragem para enfrentar o vento úmido. No caminho de volta, sentiu o sol amenizando a baixa temperatura e iluminando sua cabeça quase completamente desprovida de cabelos. Talvez fosse melhor aproveitar aquele sol. Morava sozinho, era divorciado e seus filhos já eram casados. Não havia motivo para voltar pra casa tão rápido. Resolveu, então, caminhar pelo bairro onde viveu toda sua vida e manter a orientação de seu médico, de praticar algum tipo de exercício, mesmo que seja uma caminhada pelo bairro.
Passou pela banca de jornal, por onde sempre passava.
Passou pela praça das crianças, por onde sempre passava.
Passou pela tinturaria, por onde sempre passava.
E parou por ali, onde sempre parava. Daquele ponto em diante começava uma rua mais estreita e, a pé, ele nunca seguia. Não por qualquer motivo de segurança - o bairro era mesmo muito tranqüilo, como cidades minúsculas do interior - mas sim pelas lembranças.
Até mesmo quando dirigia e era obrigado a passar por ali por qualquer motivo, evitava a todo custo reparar nos detalhes da rua, das casas. Ignorava. Agora não mais dirigia e não precisava ir longe de seu lar para comprar o que quer que fosse. Portanto, por ali ele não passava.
Aquela tarde, porém, não era uma tarde comum.
Não só pelo frio com vento úmido e céu aberto no mês de novembro. Alguma coisa, que jamais alguém poderia explicar, tomou posse daquele senhor e ele seguiu em frente.
Seguiu pela ruela que há anos evitava. E seguiu reparando em tudo. Nas casas, nos postes, no comércio.
A sapataria ainda estava lá, mas a lojinha de doces agora era uma papelaria, a marcenaria era agora um escritório qualquer e o espaço onde antes havia a maior casa da região, agora abrigava um prédio com apartamentos apertados. Talvez as lembranças do comércio daquela pequena rua estivessem embaralhados, talvez não fosse exatamente assim.
Mas no fim da rua existia uma casa com um portão branco, que sempre foi branco e, esta casa sim, ele jamais iria esquecer.
Avistou de longe. Pensou em recuar, mas já estava ali. Aproximava-se lentamente e a cada passo que dava em direção ao portão branco, sentia seu coração bater cada vez mais forte.
Chegou. O número 640 seguia firme pregado na parede além do portão. Já a tintura da casa não resistira ao tempo e deixava a casa acinzentada.
Que bobagem, pensou. Com tanto tempo a casa deve ter sido pintada e repintada dezenas de vezes. Apesar do cinza, a casa tinha um aspecto alegre e isso se devia ao fato de que havia, entre o portão e a parede, um lindo jardim. Um jardim que antes não existia. Pelo menos, não em sua memória.
Não podia contar quantas rosas existiam ali. Havia outras flores também, mas ele só conhecia as rosas.
Ficou ali, parado em frente àquela casa e admirando as flores, quando de repente foi interrompido por um susto. A porta se abria.
Por ela saiu uma senhora, cabelos grisalhos, vestido florido e um regador na mão. O coração do senhor que havia se aquietado, voltou a acelerar. Seria ela?
Ela não o notou e começou a cuidar de seu jardim. Enquanto regava e cortava algumas flores, ele teve tempo de notar seu rosto e ter certeza. Era ela! E ela o notou.
-Pois não?!
Ele não respondeu. Ela então se aproximou. Olhou nos olhos daquele senhor e o reconheceu.
Aquela não era uma tarde comum.
-Jorge?
-Oi, Lúcia.
-Você... O que você... Oi! Quanto tempo! Você... – ela não conseguia achar as palavras. Nem sabia quais palavras procurar, tamanha surpresa. E ele sorriu, contente por ela ter se lembrado dele e porque achou engraçado a forma como ela não conseguia formular a frase. Ela então parou de gaguejar e sorriu também. Abriu o portão e saiu na calçada para conversarem.
-O que você faz aqui? – conseguiu perguntar.
-Eu estav... eu decidi que... eu... – a gagueira havia passado para ele. – na verdade meu médico disse que seria bom eu fazer caminhadas e resolvi passar por essa rua para chegar no outro bairro e parei aqui pra ver a sua casa e me encantei com as flores.
-Mas... Mas você nunca mais apareceu.
A ênfase que ela deu no “nunca mais” tinha explicação. Quando eram bem jovens, antes mesmo de fazerem 20 anos, eles eram namorados e apaixonados. Em uma época em que se namorava praticamente escondido e que nem em sonho ele poderia atravessar aquele portão branco e por vezes, por esse motivo, iam namorar na sorveteria e depois se sentavam na calçada da marcenaria, olhando para a casa grande e sonhando em um dia comprá-la para casarem e criarem lá seus filhos.
Mas a vida tomou outros rumos. Casaram-se com pessoas diferentes e nunca mais se viram, pois as lembranças causavam, aos dois, um certo sofrimento, uma angústia e uma frustração de saber que aquele romance havia sido interrompido.
-Você também não apareceu.
Ela não respondeu.
-Fiquei sabendo do seu marido... Eu sinto muito.
-Tudo bem, já faz tempo. Encontrei forças nas minhas filhas. Foi uma delas que te contou?
-Não, na verdade eu nem as conheço. Mas seu neto contou para minha neta e ela me contou.
-Engraçado eles se conhecerem, né?
-É... Mesmo colégio, mesma idade, mesma classe... É engraçado.

Os dois se olharam e sorriram novamente.
-Parabéns pelo jardim! – ele cortou o breve silêncio.
-Obrigada. – Sentiu que ia dizer algo importante - Cuido dele há 50 anos.
-Puxa!
– exclamou percebendo se tratar de muito tempo, mas sem fazer as contas - Cuida muito bem. Antes não havia nada, né?
-Não. Eu comecei a criação com uma rosa. Aquela rosa. Aquela que você me deu, pouco antes de terminarmos, lembra? Hoje virou isso.

Ele não conseguiu falar nada. Seu coração, que havia se aquietado, voltou a bater mais forte.
-Desculpe! Nem te convidei para entrar e tomar um café. Vamos?
E lá estava ele, pela primeira vez, atravessando o portão branco.
Aquela, definitivamente, não era uma tarde comum.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Por mim

Por ter me agüentado 9 meses pesando em sua barriga.
Por ter agüentado, pela terceira vez, um bebê chorando quase toda noite e te acordando, precisando de cuidados.
Por ter agüentado 10 anos uma criança chorona que não gostava de ir pra escola.
Por ter agüentado uns 3 anos de pré-adolescência rebelde, mal-criada.
Por ter agüentado mais tantos anos de adolescência, com tantos problemas que qualquer adolescência traz.
Por ter ajudado a me transformar no homem que sou hoje.

Pelo carinho, pelo amor, pelo respeito.
Pelos colos cedidos, pelos cafunés, pelos sorrisos.
Pelas conversas que tivemos, pelas conversas que não tivemos, pelas conversas que vamos ter.
Pela paciência, pela tolerância, pela confiança.

Pela preocupação comigo, pela preocupação com a família, pela preocupação com a nossa falta de preocupação. Pela sua tranqüilidade. Por ser nosso ponto de equilíbrio.
Pela personalidade forte, guerreira, insistente e inquieta que eu tento me espelhar.
Por tudo que me ensinou e pela inteligência espiritual que transmite.

Por não desistir de mim, mesmo quando dou motivos para isso.
Pela força que me deu nos momentos difíceis. Pelas lágrimas derramadas ao entender meu sofrimento.
Por ficar ao meu lado.

Até mesmo pelas nossas brigas, que me fizeram perceber que não sou absolutamente nada sem você.
Por ser quem você é.

Por tudo isso e muito, muito mais:
Obrigado, mãe.

Amo você eternamente.
Feliz dia das mães.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Enquanto

Eu sei, há tempos não falo nada. Principalmente de mim.
Acho que aprendi a conviver com um misterioso enquanto, que não revela tempo, maneiras ou certezas. Acho.
Minhas convicções nunca se mostraram totalmente verdadeiras ou falsas. Agora, então, não mais as tenho.

Mas sigo
Esperando o dia que me sentirei, enfim, completo novamente, flutuando os pensamentos como nunca deixei de acreditar.
Buscando caminhos, trilhas e pistas que me levem a algum outro lugar, bem alto, de onde eu possa contemplar o horizonte e, ao olhar pra trás, me perceber perdido, tendo como única saída soltar meu corpo ao abismo.
Tentando evitar a mania de esquecer que me prendo a uma idéia, não a uma pessoa, mesmo que essa pessoa seja a única que me faz esquecer qualquer outra idéia.

Só sigo
Descobrindo-me, cada vez mais, como alguém que, como tantos outros, prefere sofrer por amor a ser condenado a uma vida sem.
Aí me aqueço em novos abraços, me encanto por mais olhares, conheço outras bocas e outros beijos.
Alimentando com migalhas a esperança, pois ela alimenta-me a alma, enquanto não descubro sua par.

Sigo assim, sempre em vão, mas sigo.
Até ter de volta o que perdi. Ou encontrar em outro alguém, enfim, o pedaço que me falta para me perder por inteiro, sem chão pra pisar ou cair.

E se posso garantir apenas uma certeza, apresento-lhes:

eu não desisto jamais.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

(in)Verno

Foi tudo tão rápido.
Conheceram-se, conversaram algumas vezes, perceberam suas afinidades, riram e em poucos dias sentiram a necessidade de estarem juntos.

E lá estavam. Embaixo de um céu completamente aberto, à beira de um lago, numa linda tarde. Fazia frio, mas o sol o impedia de incomodar. Fazia muito sol, mas o frio o impedia de incomodar. Ou seja, o clima estava perfeito e a grama verde nunca foi tão convidativa.
Deitados e abraçados, alimentavam patos e gansos, que, curiosos, flutuavam até a beira do lago para saberem quem eram aqueles dois desconhecidos.

Conversavam e riam. Descobriam-se cada vez mais. Todos os assuntos que sempre os intrigavam, surgiam para se explicar ou para realmente fugir a uma lógica. Ele não entendia a simplicidade das cachoeiras e ela não entendia a complexidade dos buracos-negros, mas os dois fenômenos os encantavam. E cada vez mais eles se viam mais encantados um pelo outro.

O sol começou a ir embora. Mas não sem antes presenteá-los, pintando todo o céu de laranja. A paisagem se fez linda. O grande lago refletia o pôr-do-sol e as árvores. Muitas cores.
E se já estavam juntos antes do sol partir e deixar o frio dominar, agora eles estavam praticamente grudados. E claro que não era apenas para se aquecerem. Aquele cenário perfeito exigia que se beijassem. Assim o fizeram.

Agora olhavam o céu, mais escuro e viam estrelas. Só duas estrelas, pra ser mais exato. Ou três. A cada minuto, uma estrela nova e um beijo novo. Mais estrelas. Mais escuro. Mais beijos. Mais frio. Mais abraços. Céu estrelado. Muito frio.
Era hora de ir embora.

Caminhavam de mãos dadas. "Que estranho", pensou. "Mas que bom!", continuou pensando.
Foram jantar. Sanduíche de presunto e Coca-Cola. Simples demais, mas os dois adoravam tanto quanto o garoto do oito.
Estavam de volta ao apartamento dela. Um colchão na sala, travesseiros, cobertor pesado e um filme na TV foram suficientes para voltarem à magia do pôr-do-sol no lago.
Mãos dadas, mais risadas, mais beijos, mais abraços, calor. Mais tudo de novo. Mais calor. Jogo na TV.

Era o time dele na final. Era ela torcendo contra. Era o time dele fazendo gols. Era ela se irritando. Era ele tirando sarro. Era ela o golpeando fortemente com uma almofadada na cara. Eram os dois rindo feito bobos.

E era hora, agora, dele voltar pra casa. Enquanto esperava o elevador, subitamente ele olhou pra ela e a viu sorrindo, com um brilho no olhar, observando-o. Ganhou o dia, o mês e o ano naquele olhar.

Enquanto seguia seu caminho de volta pra casa, a fumaça saía de sua boca e ele sorria. "É muito querer mais dias assim?", perguntava-se.

Aquele dia de outono foi tão incrível que, no começo da primavera, ele lembrava e encontrava a resposta: "Sim, seria querer muito!"
O amor dos dois pouco resistiu ao inverno. Tão rápido quanto veio, na aproximação, foi-se, no afastamento.

Perguntou-se "como?" e achou ter entendido. Talvez um fosse simples como uma cachoeira e o outro fosse complexo como um buraco-negro.
Mas era só uma suposição.